domingo, 14 de maio de 2017

Moderação na política: uma nova visão

Esse post foi inspirado no seguinte vídeo:

Democracia e Sharia podem coexistir?

Não só o vídeo me inspirou, mas os comentários também. Inclusive há um comentário meu nesse vídeo. Houve críticas aos moderados democratas, que deixaram os extremistas vencerem as disputas judiciais, e também críticas aos muçulmanos moderados, que seriam aqueles que "não mataram ninguém, mas apoiaram os extremistas quando eles fizeram o trabalho sujo". Diante disso, resolvi trabalhar um conceito de moderação política, que eu acho adequada para qualquer doutrina, principalmente doutrinas que estão sujeitas à perseguições e violência.

De um lado temos os radicais. Esses perseguem, combatem direitos dos seus adversários, agridem e matam por seus ideais. De um outro temos os passivos, que se sujeitam aos outros e preferem anular a si mesmos do que se envolver em um conflito, mesmo que tal conflito possa ser resolutivo. Esses passivos são muitas vezes considerados moderados também. De modo que até aqui trouxe dois (talvez três) conceitos de moderado que são ruins, e não é a toa que os moderados são vistos com maus olhos.  Mas então trarei o meu conceito de moderado, que certamente irá agradar aos leitores e os farão desejar serem moderados também, se minha argumentação for sólida e considerada racional.

Moderado político: pessoa que, mesmo tendo uma visão política e religiosa bem definida, defende que pessoas com visões diferentes das dele possam desfrutar das mesmas liberdades que ele possui".
Eu digo "mesmas liberdades", porque se os outros não podem ter liberdade para perseguir e matar, eu também não posso ter tal liberdade. Porém, isso não quer dizer que um moderado renuncie aos seus direitos, à sua força ou à reação perante uma agressão. O moderado deve ser uma pessoa forte, mas também uma pessoa capaz de controlar a própria força. Diante de uma agressão, o verdadeiro moderado deve responder de forma proporcional, conforme a gravidade da agressão. O que significa ser proporcional? Significa que, quanto mais grave a agressão, mais forte deve ser a minha resposta. Não quer dizer que a resposta deve ser idêntica à agressão que a gerou, numa espécie de "Lei de Talião", na qual aquele que fura um olho tem seu olho furado também. Tal pensamento é rígido demais. Mas quer dizer que a resposta deve ser forte o bastante para evitar ataques posteriores. Seja por meio de mobilização, de atividades corretivas, processo legal, prisão, ou em último caso uma reação armada, que pode provocar a morte, a reação do moderado contém a dose certa de força defensiva e ofensiva, de modo que seus adversários se vêem forçados a respeitá-lo.

Quais efeitos um pensamento moderador terá em uma sociedade? Os efeitos que eu espero são os seguintes:
- ao lidar com extremistas, os moderados serão no início discretos e irão evitar conflitos que não podem vencer, aumentando suas forças enquanto são capazes de fazê-lo. Assim, no caso de serem atacados, os moderados estarão devidamente preparados e se defenderão com toda força. Isso desencorajará atitudes extremistas, e pode ser que pessoas extremistas revejam suas posições e adotem uma posição moderada também, podendo ou não mudar os ideais que defendem (por exemplo, um muçulmano radical, diante da impossibilidade de destruir os não-muçulmanos, pode ou não continuar sendo muçulmano, mas de qualquer modo abandonará a luta armada)
- Ao lidar com passivos, os moderados não irão impor seus ideais sobre eles nem tiranizá-los. Pois apesar de mais fortes, eles tem controle sobre sua própria força. Os moderados irão tentar fortalecer os passivos, pois não temem a competição e confiam na própria força. E o que se espera é que os passivos sejam seduzidos por tal atitude e se aliem aos ideais que os moderados defendem. Assim, com os passivos apoiando os moderados, combater sua passividade e seu desamparo adquirido (learned helplessness) só irá fortalecer mais ainda o grupo moderado.
- ao lidar com outros moderados, eles não terão que se preocupar com nada. A posição com os fundamentos mais sólidos ou que trouxer mais benefícios aos seus seguidores é que prevalecerá, mas ainda haverá espaço para a existência de outros grupos.

Assim, os movimentos moderados poderão expandir a si mesmos sem se sujeitarem à martírios inúteis e sem usarem de tirania e proselitismo, respeitando a liberdade daqueles que deles discordam. Essa deve ser a atitude de todos que acreditam estarem seguindo um bom caminho e desejam propagá-lo.

Sobre este Blog

Esse Blog tem como objetivo divulgar minhas ideias sobre diretrizes para um modo de vida. Tais diretrizes devem ter por bases a veracidade (não podem admitir o auto-engano), a praticidade (devem aumentar a possibilidade de resultados positivos e diminuir a de resultados negativos) e a auto-evidência (de modo que qualquer pessoa que use métodos de investigação adequados possa encontrar tal caminho). Por serem generalizações, essas diretrizes tem duas vantagens: se organizadas corretamente, podem ser seguidas por qualquer pessoas, sendo assim universal; e ao mesmo tempo, garante uma margem de manobra para adaptar características individuais à prática.

Alerto o leitor que o pensamento que sigo está ainda em construção. É provável que eu mude meu pensamento com o tempo, então não se assuste se você se deparar com novas postagens que pareçam, se contradizer com as postagens atuais. Essa não é minha primeira tentativa de escrever sobre um caminho de vida. Em outro blog meu, Amigo de Epicuro, fiz algumas exposições sobre o Epicurismo, que é um sistema de pensamento filosófico que tenta orientar as pessoas a alcançar a felicidade. Usando a racionalidade, sem apelar para a religião, para apelos emocionais ou para ideias metafísicas abstratas. Ainda sigo muios princípios epicuristas no meu modo de viver. Porém sentia que essa filosofia não seria capaz de resolver totalmente certas questões humanas, e que ela não seria capaz de se estruturar de forma a prosperar na sociedade atual. Mas ela me animou para usar a filosofia (como ferramenta do pensamento) como meio de construir um modo de vida próprio, que pudesse ser compartilhado com outras pessoas. Bem, visto que meu pensamento nunca finaliza e está sempre em transformação, decidi voltar ao trabalho de escrever, para que tal vacilação de pensamentos não paralisasse minha atividade e resultasse na perda de ideias brilhantes. Isso certamente resultará na escrita de ideias que em algum momento rejeitarei, mas pelo menos aqueles que me seguirem saberão o caminho que trilhei até agora e as minhas razões para abandoná-lo.

O conceito de vontade que trago aqui é baseado em Nietzsche. Porém não me restringirei ao pensamento desse autor. Nietzsche não foi o primeiro e nem o último pensador a refletir sobre o papel da vontade na existência humana, mas seu pensamento sobre tal tema é pertinente e muito influente. Vontade é um conceito que implica em uma força que leva à ação. O ser humano age sempre em função de uma vontade, seja ela própria ou de outrém, consciente ou inconsciente. Podemos inclusive dizer que a vontade está presente nas forças da natureza, de modo que a vontade da gravidade atrai o
ps corpos, a vontade do fogo aquece e queima e a vontade de um corpo em movimento percorre o espaço. Vontade muitas vezes se confunde com força e energia, mas isso explico em outra ocasião.

Nietzsche também, explorou uma questão muito importante para os dias atuais: o niilismo, que é a perda de valores absolutos que definam a vida humana. Usando a expressão genérica "Deus está morto", Nietzsche acusa a situação da sociedade moderna, que com o avanço do seu pensamento e da sua ciência "matou Deus", isso é, rompeu com todos os valores que considerávamos absolutos e que davam sentido à nossa existência (Deus, religiosidade, valores morais, razão, amor, compaixão, a vida após a morte, justiça). A humanidade atual está em uma crise de valores e precisa superar essa crise, sob pena de condenar a si mesma à morte se não o fizer. Nietzsche afirma que essa crise de valores resultará na transformação do homem em uma nova criatura, o Übermensch (além-do-homem, ou super-homem), que irá superar todos os valores já estabelecidos e viverá por meio de sua vontade. O Übermensch abandonará tudo que enfraquece o ser humano e será capaz de fazer o que muitos poucos indivíduos conseguiram até agora, que é desfrutar ao máximo de sua existência, inclusive com os sofrimentos inevitáveis que a vida contém.

Resumindo, o objetivo desse blog é tentar mostrar um caminho para a superação humana, um caminho que possa ser seguido por outros, independente de crenças pessoais e que tenha poder para libertar a humanidade da mediocridade. Aguardemos então os próximos capítulos dessa estória.

Até breve.